segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Não Digas Nada



Não digas nada. Deixa-me sentir
o voo dos pássaros
na palma da tua mão
seguir o rodopio da esperança
tocar o fio de claridade que agarras em cada manhã
e me visita e me acompanha
e de mim te afasta
e de ti me aproxima.


Adivinho o mar que inventas e o azul
a que regressas
mas ardem-me nos olhos
as chuvas que despem os dias
e cobrem o chão de silêncio.


E a escuridão que me dói enche a solidão das horas
e chora o tempo
em que se calam as palavras.


03.09.11

domingo, 4 de novembro de 2012

Quando o Crepúsculo Desperta


Nada mais sou que um murmúrio
gritando aves
nos ramos dos ventos


nada mais que uma pedra
aglomerando sílabas
conjugando alentos.


A sós com o tempo
habito os silêncios de insónias doridas


árvore transitória
liberta num bailado de folhas caídas


verdes memórias
em movimento.


A luz não é mais que um instante
um momento


vertigem de um gesto afagando sombras
moldando asas


quando o crepúsculo desperta
e me acende sóis.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Meu Grito




O meu grito não me pertence.
Agoniza entre equívocas sombras
cativo das algemas do tempo
prende-se ao vento
parte e navega
sangra em ecos de pedra
é voz de granito perdida
na pauta sem melodia
interroga o quase nada da vida
que se esvai entre o breu da folha vazia.
O meu grito é o silêncio do hoje
que dorme num tempo sem fim
a inércia da onda
submersa em barrenta agonia
a fuga da nota estridente
que passa sem rasto dentro de mim.


05.06.10

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Floema



Tacteio na pele das árvores
a trança das memórias. Penteio os sonhos
de ontem e de amanhã
nomes
vultos que reaprendo
nas palavras onde moro.

Guardo no vento sementes
inesgotáveis
navios repletos de sol
onde equilibro os gestos
e aquieto a flutuação do tempo.

Dias de espera sobrevivem
em insaciáveis gotas de água
visíveis na sonoridade das folhas azuis
suspensas da claridade dos pássaros
e do recomeço do movimento.


09.04.11

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Jugo da Nostalgia


 

Retomo as marcas
dos passos vazios,
anunciando-me
um tempo
que o tempo levou,
embalada pelo ritmo lento
e baço
de dias tecidos de cansaço.


Teima em calar-se
a voz feiticeira,
perdida em espaços
que outrora pisei,
recolhendo as cores,
proclamando a luz.


Ausente de novas tintas,
deponho a minha pena,
entrego meus despojos,
sombra fugidia,
sob o insubornável jugo da nostalgia.



Escrito a 24.09.2009

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Acendo a Noite



Vou por aí tateando imagens
fragmentos de nomes que descem a rua
poeiras de um tempo que flutua
numa trajetória paralela ao encantamento.

Voam os pássaros
numa teia de inexoráveis solidões
tombam sobre a terra folhas mortas
ligam os ciclos da vida e do vento
na crueza de um amanhã desfeito.

Guardo nas mãos um pedaço do mundo
sento-me a teu lado e acendo vagalumes na noite
para apagar as sombras do medo
e do sopro dos anos recolher o doce silêncio das palavras antigas
à espera de uma dobra do tempo que nos rasgue esta dor
meu chão  minha seiva  meu amor.

domingo, 14 de outubro de 2012

À Deriva, o Tempo



Tu eras a tarde
a escutar o silêncio das marés
e um horizonte feito de lagos
a levar os meus olhos
dentro dos teus.
Eras a pele
e o veludo da primavera
e nos teus lábios eu lia
rubras melodias
quando o pôr do sol nos trazia
a eternidade da luz.
Planícies de sol inundavam o verde dos dias
quando amanhecia
e a nascente floriam os girassóis
a flutuar na tela de um tempo
à nossa espera.

Não sei aceitar o que aconteceu. O meu olhar
é hoje um lugar
sombreado de saudade
é o vento a guardar nas mãos
um deserto
é uma gota de água a arrastar
para dentro da terra
raízes de solidão.

sábado, 13 de outubro de 2012

Nas Minhas Mãos Aves e Tempo


Aqui as águas do rio a cruzar os braços
a esquecer o mar
cansadas
a manhã a bocejar
na insónia da neblina.

Ali o barulho ensurdecedor
das pedras
horas de gelo a pingar solidões
os olhos da chuva nos sulcos do rosto
as palavras a arder
em fogueiras apagadas.

Aqui e ali
nas minhas mãos aves e tempo
a luz cristalina das madrugadas
laços
na voz do silêncio
e em molduras guardadas
a rosa dos ventos.

Retorno à Idade da Inocência

idadeinocencia7

Crispam-se os rostos
na inquietude das palavras
que ficam por dizer.

Rodo sobre o meu eixo
e perco-me no emaranhado
das agulhas do tempo,
no desnorte dos sentimentos
ocultos na superfície dos olhares.

Tragam-me de volta
a limpidez das águas
que reflectem o azul
da idade de todas as inocências.

Abram as vossas mãos
e recolham os sorrisos e o viço das pétalas
partilhadas pela brisa
que da minha alma quer soprar a desilusão.

Retornem.

Absorvam as harmonias do piano
e dancem comigo as lembranças despertadas
ao ritmo da renovação.
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Um Sonho Feito de Luz


Afundo-me lentamente
num redemoinho insaciável,
alimentado de infinitas ausências.

No silêncio opaco
em que me perco,
desenho os movimentos
protetores das lembranças
que me ecoam na memória.

Fixo-me em rostos de pedra
imersos na tranquilidade baça
que, esquecida de mim,
eu procuro entender.

Extingue-se o tempo,
adensam-se as sombras,
abre-se a eternidade em que me encontro,
caída do meu sonho de luz feito.

Fugas


Doem-me
as tuas ausências,
o medo velado
que me é revelado
no cansaço da tua voz.

Dói-me
a tristeza do teu olhar,
detido nos sinais
tantas vezes trocados,
nas insubornáveis
encruzilhadas da vida.

Dói-me
a porta fechada,
quando queres partir
e só podes ficar.

Dói-me
a dor que se esconde,
quando foges de ti
e não sabes p'ra onde.

Digo-te de Nós



Digo-te ainda
de um tempo feito de luas transparentes
e anseios de abril

de um mar exato de águas repousadas
que me abrigava
na claridade dos teus silêncios;

digo-te da sede
que em mim bebia o fogo das alvoradas
e acordava rituais
de sementes inebriantes.

Digo-te de mim
de olhos que ardem rios de sal
que não secaram o bastante
para respirar

da ilusão que afaga as incertezas
de uma rocha poente
e inventa remendos flutuantes
em margens transbordantes e desertas.

Digo-me
a mim
de um tempo paciente
incompleto
em aberto sem memória.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Brechas

 
 
Depois...
o tempo foi passando
vazio rápido lento
enchendo-me de carne
e roendo-me os ossos

martelando-me os ouvidos
enterrando-me farpas na cabeça

abrindo brechas
cada vez mais fundas e perplexas
entre mim
e o mundo que me rodeia

quando dou por mim
já cá não estou

estou nas copas das árvores
não
minto
estou no avião que as sobrevoa

e quando regresso
a noite não dorme
vagueia
escorre sem nexo em ponteiros mortos
insana
à toa.

A Dor Que Me Dói


Não se sente na carne
a dor que me dói.

Tem a forma de um rosto
feito de pele negra
da terra, da fome, da guerra.

Cabe na mão
que o desespero encerra.

Quer saber o Deus
que a outros não diz não.

Aperta os lábios
que querem sorrir.

Atira para longe
o sono e o sonho.

Parte em viagens
sem regresso.

Partilha solidões
sem saudade.

Não Partas!


Contas-me
que amas as palavras
para construir ficções
desconstruir confissões
reconstruir ilusões.

Abrigas-te sob o perfume da magnólia
desentrelaças os ramos
fazes-te música
contas as estrelas.

Retiras os véus do  baú
que abres
com a chave que a ave
te cantou.

Encontras memórias
inventas histórias
redescobres amores.

Fica

aqui recolherás
o que te faria partir.

Enlaça-te nas tuas folhas
poda os teus ramos
mima as tuas flores.

Eu seguirei a teu lado
com os meus braços
à tua volta
e as minhas raízes no teu chão.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Porta Fechada


Os teus passos
fecharam a porta
queimo o silêncio
da noite
arde o amor
no gelo que dói

como dizer-te
da chuva noturna
que me seca
no rosto
as raízes dos girassóis...

domingo, 30 de setembro de 2012

Reinventei o Livro


Um por um
recolhi os despojos
dos sonhos que rasguei

paginei o livro
que reinventei
nas areias que outrora esculpimos
tu e eu num só
em madrugadas
de ouro e azul

renascerei na alba
que a tua voz inaudível
me anuncia

transbordando
de um leito clandestino
onde
de novo
os nossos rios ousarão correr.

sábado, 29 de setembro de 2012

Não Sei Como Dizer-te Até Breve


Não sei como dizer-te
até breve
quando os dias perderam o chão
onde permanecer

e as palavras esqueceram as tardes
de claridade
que esculpiam a maciez das aves
no meu jardim da saudade.

O céu está a mudar de cor
e o eixo
de lugar

e o rio perdeu a noção de espaço
e do movimento certo
e já não corre
leve
para o mar.

Não sei como dizer-te
até breve
nem como escalar a montanha
para voltar a ver o amanhecer
no meu olhar.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Rios Submersos


Dentro de mim voam os silêncios
do tempo em que abria as mãos
e estendia os dias
nas águas claras do sol nascente.

Abraçava-me o horizonte
no céu de manhãs infinitas
deitadas em véus de espumas ardentes
delírios de verão.

Desnudam-me ecos de vozes interditas
que transbordaram
de rios submersos em sombras de um destino vão.

Suspendo na mudez de um grito
a erosão das palavras vestidas de emoção
e retoco no espelho
a verdade da ilusão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Limiar da Sombra


Regressei,
com os matizes de outono,
à ilusória aparência,
na dualidade do ser.


Renovei
as tintas e os gestos
de um tempo suspenso
no limiar da sombra.


Anunciei
um frémito breve
da luz indomável e interdita.


Recolhi
solitárias memórias
de doces emoções repartidas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Azul dos teus Olhos Castanhos




Desenho-te,
em cenários de azuis.


Junto
música e seda.


Seda melodiosa,
música acetinada.

Adivinho-te,

em oceanos
de azuis profundos,

quase abissais,

onde dançam
e se entrelaçam
os sons e os tons,

na alma de um violino,
no canto das sereias.


Sinto,
na magia do azul,

a doçura do olhar
dos teus olhos castanhos.

A Sombra do meu Crepúsculo


Repetem-se as matrizes
de nostalgias renovadas
nas primeiras lágrimas
que os céus choram
por mim.


Arrasto no meu gesto
a náusea das dúvidas
e incertezas
que detêm a transparência
do meu olhar.


Vazia de cores,
procuro o regresso
de espaços vedados
a melodias cintilantes.


Foge de mim
o tempo do amanhã,
interdito ao tédio pardacento
da sombra crepuscular
em que me espelho.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Espiral



Sou vento
sou plátanos


espirais
em amarelo
ocre
sangue


redemoinhos
de castanho
e asfalto


turbilhão
de brancos
azuis
e cinza


sou ébano
marfim


sou Abel
sou Caim


sou guerra
sou paz


sou?

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

As Cores do Amor


O amor
é às cores.

É o azul de uns olhos
com pintinhas castanhas.

É o ouro dos cabelos
que tocam um rostinho rosado.

É a cor da madeira
que abriga um Natal
vermelho e dourado.

É a cor do verão
e o verde das palmas
em Maiorca.

É a cor do sorriso
do menino que vive só.

É a cor da serra
e do vale
onde cresce o amor.

E as Pedras Floresciam



Detive o olhar
no interior dos meus olhos
e, por momentos frágeis,
construí o sonho,
na música que me embalava.

Partículas de luz
eram tocadas pelo vento,
afagadas pelos vultos
do tempo que me atravessava.

E as pedras floresciam,
orvalhadas de arco-íris,
no azul da madrugada.

Anoitecem as palavras.

Regresso crisálida,
refém da rasura,
referência do nada.

Reaprender

Aprendi
que não sabem soletrar
o meu pensamento.

Aprendi
que não gostam do timbre
das minhas palavras.

Aprendi
que vêem um esgar
quando ponho um sorriso.

Aprendi
que acham excessivo
o meu gesto mais simples.

Aprendi
que não querem os sons
das minhas melodias.

Aprendi
que sentem o peso
da minha presença.

Aprendi
que lhes dá mais prazer
um adeus que um olá.

Aprendi
que vou reaprender
a gostar de mim.

Para ti



Para ti
que escutas o murmúrio
da emoção que preciso repartir

que desbravas
comigo
trilhos de silvados

que rasgas nuvens de tempestade
e persistes na força do querer.

Para ti
que tornaste mais firme a minha voz
menos frias as minhas mãos

que
tremendo
me ensinaste a saber tremer.

Para ti
que me fazes crer
que pode ser linda
a loucura de ser diferente.

Para ti
que disseste
Tu existes! Tu podes ser!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Queria Ter o Tempo



Queria ter o tempo
de ser eu,
para poder ter-me
e me poder dar-te.


Para ser só uma
e não várias,
e tão outras,
em uma só.


Queria ser igual
e saber ser,
todos os dias.


Queria recusar-me,
ou aceitar-me.


Não fujo
porque eu quero
e o meu regresso
não está em mim.


Queria ficar,
mas não me pertenço.


Para quê fugir,
se me levo
sempre
comigo?…

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Colheitas de Amor



“Mãe, fala-me de mim.
Gosto tanto que me fales de mim!…”

E foram instantes de risos
e de lágrimas

searas de ternura
em campos
de areia
e de neve

colheitas de amor
e saudade

doçura de rostos
passinhos trémulos
gestos sem norma.

“Porquê, Mãe?
Explica-me…”

Procuro a palavra
a definição

é preciso clarificar
a situação.

“Cuidado, Mãe!
Não me deixes cair!
Nunca, Mãe…”


B.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Reencontro



Foram outros
os gestos
de um sorriso renovado
foi a verdade
de um caminho reencontrado


pingos de chuva
sabor a mel
terra molhada
força do não estar só


memórias de tempos sonhados
palavra gasta
saudade


farrapos de ilusões
traços de mim.

domingo, 9 de setembro de 2012

Memória



Cintila o tempo,
suspenso num raio de sol.


Recorta-se a nau,
na linha do horizonte.


Balanço, no feitiço da voz
que chama por mim.


Movem-se as areias,
que não fixam
os meus passos.


Diluem-se os trilhos,
apagam-se os traços.


Breve é a memória
da chama intensa
que a lágrima solitária
apagou.

sábado, 8 de setembro de 2012

Ser Aparência



Fica-me a aparência de ser,
imagem
do que não sinto,
do que não sei.


Experiência de uma vida
entre ausências
repartida,
esquecida.


Despeço-me
de mim,
sem que me tenha encontrado,
culpada
do que não fiz,
do que não procurei.


Pedaços
de sonho,
de ilusão.


O que me fará correr?
Por que hei-de sorrir?

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Eu, só


Matei memórias de futuros sonhados.
Cravei dardos no horizonte.
Gritei medos sufocados.


De que serve acordar?
Deixem-me dormir.