terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Meu Grito




O meu grito não me pertence.
Agoniza entre equívocas sombras
cativo das algemas do tempo
prende-se ao vento
parte e navega
sangra em ecos de pedra
é voz de granito perdida
na pauta sem melodia
interroga o quase nada da vida
que se esvai entre o breu da folha vazia.
O meu grito é o silêncio do hoje
que dorme num tempo sem fim
a inércia da onda
submersa em barrenta agonia
a fuga da nota estridente
que passa sem rasto dentro de mim.


05.06.10

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Floema



Tacteio na pele das árvores
a trança das memórias. Penteio os sonhos
de ontem e de amanhã
nomes
vultos que reaprendo
nas palavras onde moro.

Guardo no vento sementes
inesgotáveis
navios repletos de sol
onde equilibro os gestos
e aquieto a flutuação do tempo.

Dias de espera sobrevivem
em insaciáveis gotas de água
visíveis na sonoridade das folhas azuis
suspensas da claridade dos pássaros
e do recomeço do movimento.


09.04.11

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Jugo da Nostalgia


 

Retomo as marcas
dos passos vazios,
anunciando-me
um tempo
que o tempo levou,
embalada pelo ritmo lento
e baço
de dias tecidos de cansaço.


Teima em calar-se
a voz feiticeira,
perdida em espaços
que outrora pisei,
recolhendo as cores,
proclamando a luz.


Ausente de novas tintas,
deponho a minha pena,
entrego meus despojos,
sombra fugidia,
sob o insubornável jugo da nostalgia.



Escrito a 24.09.2009

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Acendo a Noite



Vou por aí tateando imagens
fragmentos de nomes que descem a rua
poeiras de um tempo que flutua
numa trajetória paralela ao encantamento.

Voam os pássaros
numa teia de inexoráveis solidões
tombam sobre a terra folhas mortas
ligam os ciclos da vida e do vento
na crueza de um amanhã desfeito.

Guardo nas mãos um pedaço do mundo
sento-me a teu lado e acendo vagalumes na noite
para apagar as sombras do medo
e do sopro dos anos recolher o doce silêncio das palavras antigas
à espera de uma dobra do tempo que nos rasgue esta dor
meu chão  minha seiva  meu amor.

domingo, 14 de outubro de 2012

À Deriva, o Tempo



Tu eras a tarde
a escutar o silêncio das marés
e um horizonte feito de lagos
a levar os meus olhos
dentro dos teus.
Eras a pele
e o veludo da primavera
e nos teus lábios eu lia
rubras melodias
quando o pôr do sol nos trazia
a eternidade da luz.
Planícies de sol inundavam o verde dos dias
quando amanhecia
e a nascente floriam os girassóis
a flutuar na tela de um tempo
à nossa espera.

Não sei aceitar o que aconteceu. O meu olhar
é hoje um lugar
sombreado de saudade
é o vento a guardar nas mãos
um deserto
é uma gota de água a arrastar
para dentro da terra
raízes de solidão.

sábado, 13 de outubro de 2012

Nas Minhas Mãos Aves e Tempo


Aqui as águas do rio a cruzar os braços
a esquecer o mar
cansadas
a manhã a bocejar
na insónia da neblina.

Ali o barulho ensurdecedor
das pedras
horas de gelo a pingar solidões
os olhos da chuva nos sulcos do rosto
as palavras a arder
em fogueiras apagadas.

Aqui e ali
nas minhas mãos aves e tempo
a luz cristalina das madrugadas
laços
na voz do silêncio
e em molduras guardadas
a rosa dos ventos.

Retorno à Idade da Inocência

idadeinocencia7

Crispam-se os rostos
na inquietude das palavras
que ficam por dizer.

Rodo sobre o meu eixo
e perco-me no emaranhado
das agulhas do tempo,
no desnorte dos sentimentos
ocultos na superfície dos olhares.

Tragam-me de volta
a limpidez das águas
que reflectem o azul
da idade de todas as inocências.

Abram as vossas mãos
e recolham os sorrisos e o viço das pétalas
partilhadas pela brisa
que da minha alma quer soprar a desilusão.

Retornem.

Absorvam as harmonias do piano
e dancem comigo as lembranças despertadas
ao ritmo da renovação.
 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Um Sonho Feito de Luz


Afundo-me lentamente
num redemoinho insaciável,
alimentado de infinitas ausências.

No silêncio opaco
em que me perco,
desenho os movimentos
protetores das lembranças
que me ecoam na memória.

Fixo-me em rostos de pedra
imersos na tranquilidade baça
que, esquecida de mim,
eu procuro entender.

Extingue-se o tempo,
adensam-se as sombras,
abre-se a eternidade em que me encontro,
caída do meu sonho de luz feito.

Fugas


Doem-me
as tuas ausências,
o medo velado
que me é revelado
no cansaço da tua voz.

Dói-me
a tristeza do teu olhar,
detido nos sinais
tantas vezes trocados,
nas insubornáveis
encruzilhadas da vida.

Dói-me
a porta fechada,
quando queres partir
e só podes ficar.

Dói-me
a dor que se esconde,
quando foges de ti
e não sabes p'ra onde.

Digo-te de Nós



Digo-te ainda
de um tempo feito de luas transparentes
e anseios de abril

de um mar exato de águas repousadas
que me abrigava
na claridade dos teus silêncios;

digo-te da sede
que em mim bebia o fogo das alvoradas
e acordava rituais
de sementes inebriantes.

Digo-te de mim
de olhos que ardem rios de sal
que não secaram o bastante
para respirar

da ilusão que afaga as incertezas
de uma rocha poente
e inventa remendos flutuantes
em margens transbordantes e desertas.

Digo-me
a mim
de um tempo paciente
incompleto
em aberto sem memória.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Brechas

 
 
Depois...
o tempo foi passando
vazio rápido lento
enchendo-me de carne
e roendo-me os ossos

martelando-me os ouvidos
enterrando-me farpas na cabeça

abrindo brechas
cada vez mais fundas e perplexas
entre mim
e o mundo que me rodeia

quando dou por mim
já cá não estou

estou nas copas das árvores
não
minto
estou no avião que as sobrevoa

e quando regresso
a noite não dorme
vagueia
escorre sem nexo em ponteiros mortos
insana
à toa.

A Dor Que Me Dói


Não se sente na carne
a dor que me dói.

Tem a forma de um rosto
feito de pele negra
da terra, da fome, da guerra.

Cabe na mão
que o desespero encerra.

Quer saber o Deus
que a outros não diz não.

Aperta os lábios
que querem sorrir.

Atira para longe
o sono e o sonho.

Parte em viagens
sem regresso.

Partilha solidões
sem saudade.

Não Partas!


Contas-me
que amas as palavras
para construir ficções
desconstruir confissões
reconstruir ilusões.

Abrigas-te sob o perfume da magnólia
desentrelaças os ramos
fazes-te música
contas as estrelas.

Retiras os véus do  baú
que abres
com a chave que a ave
te cantou.

Encontras memórias
inventas histórias
redescobres amores.

Fica

aqui recolherás
o que te faria partir.

Enlaça-te nas tuas folhas
poda os teus ramos
mima as tuas flores.

Eu seguirei a teu lado
com os meus braços
à tua volta
e as minhas raízes no teu chão.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Porta Fechada


Os teus passos
fecharam a porta
queimo o silêncio
da noite
arde o amor
no gelo que dói

como dizer-te
da chuva noturna
que me seca
no rosto
as raízes dos girassóis...