quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A transfiguração da sombra

Queria entender os rituais das marés
no retorno dos pássaros
aqueles que viajam infinitos
amainando a crispação das águas
e espelham o arco-íris no seu voo intemporal.

Queria reconhecer palavras nítidas
nos teus olhos e com elas
escrever a primeira floração de abril
e em manhãs escorregadias crer
na esquiva ilusão da cor
e na sábia transfiguração da sombra.

Queria suspender na memória dos rios
a lenta respiração da casa
nela descerrar a luz que inunda
a madrugada
e anunciar o regresso dos barcos
à certeza de braços que lhes são porto e preia-mar.



B.

domingo, 4 de setembro de 2016

À margem do tempo

És talvez o silêncio do poema
a conter-se
ao fundo dos olhos
o reflexo da pedra num espelho convexo
o verso esmagado pela demora
do tempo.

És talvez um eco
um murmúrio do vento
a margem sombria de um regato em viagem
a face traída
do sentimento.

És talvez a minha voz ausente
a imagem esquecida
num hiato
a linguagem fria do presente
o desdém da palavra a gritar invernia
num tempo que morre
seco
dia a dia
hora após hora
lá fora.


B.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A claridade do tempo

Vem, enterra as palavras na terra
deita-te no silêncio das pedras do rio.
O pôr do sol é quase um lugar
dentro do mar.

Ouçamos a luz do dia, caminhemos juntos
entre as sombras da montanha.
Eu afastarei as escarpas, os ramos quebrados,
a escuridão do vale.

Apaga a noite por dentro.

Ao nosso lado os sonhos sorriem
seguem, seguros, o mapa dos relógios
a linha verde do luar.

Que venham as neblinas de outono
e os gemidos do vento.

A claridade do tempo
ensina-nos a respirar.



B.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Perfis de setembro

No olhos, uma trajetória
ainda inclinada ao prolongamento da cor. Um lugar
abrigado no eixo dos pássaros, onde palavras ociosas
respiram os rituais das árvores
e transportam nos dedos a geografia de um cais.


Chegam, em linha reta, os novos perfis
de setembro, como línguas de vento
a anunciarem os primeiros contrastes
dos regressos.


Conheço a oscilação da luz e sei
que é inevitável adiar a limpidez do silêncio.

Irremediavelmente renovar as tintas disponíveis
e os gestos solitários


sobre o equilíbrio volátil
de um tempo suspenso na periferia da sombra.


B.

domingo, 28 de agosto de 2016

Morbidez de um dia entediado


Dizem
que o tédio
mata.
Não sei
se
de repente
a morte
passa
e leva
também
o tédio.
Sei
que o tédio
não passa e

l
e
n
t
a
m
e
n
t
e

vai levando
a Vida.


B.
25.02.10

Pausa

Derramo-me indolente
na nudez de horas pacientes
ao abandono do dia
rabiscando a vida
que desliza
escorregadia
despida
voltada para cenários cristalizados.


Chamam-me as cinco badaladas
esvai-se a juventude cálida
difusa
entre distantes rumores
de búzios segredando amores
vultos que se afundaram
fantasmas de um sono vão
dentro da tarde quente e cansada.


B.
07.01.10

Ciclos


As idades dissiparam-se em silêncios
dentro das molduras que sorriem
na prateleira
da lareira.
Limpo na cinza acumulada
a descrença no recomeço dos ciclos
e sopro o tempo
em espirais de vultos imortais.


B.
02.01.10

sábado, 27 de agosto de 2016

Viajar entre versos

Passo
e vou deixando
ecos de mim em todos os espelhos.

Ficam olhares presos nos tempos,
a pele colada a relógios
que perdem a noção do espaço
e do movimento certo
e começam a rodar no sentido inverso.

Desvendo-me toda,
célula por célula,
entrego a minha essência a quem quiser lê-la.

Sabendo quem sou
e para onde vou,
suspendo-me em versos em que lavo a alma,
em busca do êxtase,
ou tão simplesmente, de uma doce calma.

Regresso,
quase sempre entre sentires desencontrados,
etérea, mendiga,
sedenta, isso sim, de uma mão amiga
dispersa,
esbatida em reflexos desfocados.



B.