terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Apetecia-me chamar-te para dentro de um abraço

Para te sentires vivo
rasgas a tua pele desamparada
e sangras de solidão.
E a solidão dói.
Saber que atrás de uma rua vazia
virá outra rua vazia.
Que um som de passos
será somente o som dos teus passos.

É provável que num cruzamento
de águas
os teus passos escutem a memória
de um horizonte perdido onde as palavras
tinham a determinação da luz.

Dentro dos teus olhos existe um lugar recôndito
habitado por uma vida inteira.

Apetecia-me chamar-te para dentro
de um abraço
porque sinto que as tuas lágrimas
estão a secar
a deslizar para dentro do teu sorriso.
Queria tanto entender os significados
que estão dentro dessas lágrimas.

Mas o vento é forte e a árvore fustigada.
A palavra desarticula-se num tempo embaciado
de espaços vazios.

E tudo se reduz aos silêncios que nos fazem
cerrar as pálpebras e descair os lábios
numa linha horizontal e ilegível.

B.
27.02.17

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Pouco a pouco dói o tempo

Deambular de novo no interior
de um tempo quieto. Um tempo
em que a ilusão era a verdade a emergir
em cada rosto, em cada curva do pensamento.
Sem medos, sem fantasmas.
Reencontrar-se por detrás de si
quando a crença bastava para traçar a vida
como uma qualquer regra de gramática.
Havia luz nas incertezas da voz
ateada de um fulgor inocente
e o olhar longo, vagaroso nos verbos da tarde
era refúgio da vertigem do poema.

De repente, a vida a revolver a sorte
a gemer idades amarradas a margens
onde morrem acasos ou devaneios.
A arte de esquecer como rua
onde moram pedras e poentes.

Quantas vezes se acertaram os ponteiros
da alma?

Pouco a pouco dói o tempo
a dissolver-se nas veias

porque já não existem árvores para escrever.

B
04.02.17